GRUPO P: DAYSE E PEDRO - LITERATURA PRA QUÊ?

 

Grupo P:

DAYSE E PEDRO



Recursos Textuais: Coesão e coerência; aceitabilidade. 

Tema proposto: Literatura pra quê? 



O pai apontou para o poeta que fungava e não tinha patrocínio nas roupas e perguntou se aquele exemplar era subversivo, que é a característica mais temida nos poetas, é o equivalente à agressividade dos cães. O senhor da loja respondeu: Está abaixo dos dois por cento. É sempre necessário serem um pouco subversivos ou a qualidade poética baixa demasiado e não gera lucro, ninguém compra, acabam preteridos a bailarinos ou hamsters.

Afonso Cruz, Vamos comprar um poeta






O escritor português Afonso Cruz, em Vamos comprar um poeta (2020), constrói uma narrativa alicerçada em uma sociedade utilitarista, em que qualquer experiência, seja ela objetiva ou subjetiva, é julgada a partir de noções embasadas no lucro e no custo benefício. Apesar de ficcional, até que ponto a criação de Cruz está distante da visão do mundo real acerca do papel da arte? Afinal, para que serve a literatura?    

O sociólogo e crítico literário Antonio Candido responde à nossa questão, ao afirmar que a literatura, mais que uma necessidade, é um direito básico do ser humano. Nas palavras do estudioso: 


[...] a literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudiciais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornece a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas. (CANDIDO, 1995)


Dialogando com o autor, a poetisa e escritora Adélia Prado, em participação no programa Sempre um Papo, diz a respeito da poesia que:


Quando falo de poesia, não é a poesia que eventualmente, nem sempre encontramos nos poemas. Falo do fenômeno poético de natureza epifânica, reveladora daquilo que confere a uma obra de arte o estatuto de obra de arte. Pode ser música, pode ser escultura, pintura, teatro, dança, cinema e literatura, que é onde eu me coloco. Tudo isso que foi nomeado, tudo isso que eu chamo de arte se justifica pela poesia que ela contém. Se não tiver poesia, não é cinema, não é teatro, não é pintura, não é literatura, não tendo ela é tudo, menos obra de arte. A obra verdadeira é sempre nova, não cansa, pois traz em si mesma e apesar de si mesma, algo que não lhe pertence e nem pertence ao seu autor, vem de outro lugar, de uma instância mais alta e através da única via possível que é a via da beleza. Em arte, quando falo beleza, não estou falando de boniteza, mas de forma. A forma, a beleza, revelam o ser das coisas. É muito estranho falar do ser das coisas, esse ser que é inapreensível, não dou conta de pegar um ser de uma rosa, de um rio, de uma paisagem ou de um rosto, mas quando a arte faz isso ela apreende essa coisa mais alta que está atrás das coisas, ela nos revela, nos remete a beleza suprema se estivermos despidos do orgulho, da razão e da lógica.  


Tanto Candido quanto Prado apresentam a visão da arte como um direito, e a necessidade de sua apreciação conecta-se, desse modo, a uma experiência que vai além do universo literário, perpassando valores sociais e levando à reflexões voltadas às lutas pelos direitos humanos, ao entendimento da diversidade e, mais do que isso, à busca humana por sobrevivência, o que naturalmente abarca boas condições de vida e a garantia de integridade espiritual e transcendência. 

A partir do exercício de alteridade que fazemos quando lemos literatura, entendemos que a alimentação, moradia, vestuário, educação, saúde, liberdade individual, amparo da justiça pública, resistência à opressão, dentre outros, são incompressíveis. Mas também o direito à crença, à opinião, ao lazer. A literatura proporciona, assim, uma dimensão global das premências humanas, ampliando os repertórios e  repercutindo na mente daquele(a) que lê.    




Diante dessas elucubrações, como podemos resumir nossa perspectiva acerca da função da arte e da literatura, de modo mais específico? A resposta só pode ser dada se ponderarmos acerca de uma questão prévia; arte e literatura só serão consideradas bens indispensáveis à sociedade quando percebermos que, mais do que sobreviver, todo e qualquer sujeito merece alcançar a plenitude. E ela só pode ser alcançada quando os indivíduos não passam toda a existência preocupados unicamente com as cruezas de manter-se vivos. Com necessidades básicas satisfeitas, são capazes de meditar sobre as urgências profundas do ser humano. Considerando-se as colocações feitas, podemos afirmar que sim, a literatura tem grande serventia para as dinâmicas sociais. 

Concluímos, assim, que a literatura, para a perspectiva apresentada, é tida como manifestação universal da humanidade, em todos os tempos, não existindo povo que possa viver plenamente sem ela. Se ninguém pode passar sem a literatura, o signo parece corresponder a uma necessidade universal que anseia por ser satisfeita, constituindo-se como um direito. Por isso que a literatura vem sendo um instrumento de instrução e educação, proposta como equipamento intelectual e afetivo. O que nos faz pensar na seguinte questão: por que não estamos lendo mais literatura?






Referências: 


CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: _______. Vários escritos. 3ed. São Paulo: Duas Cidades, 1995. 


CRUZ, Afonso. Vamos comprar um poeta. Porto Alegre: Editora Dublinense, 2020.


SEMPRE UM PAPO. Adélia Prado no Sempre um Papo. 2008. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=sisSlTXY6bM&t=244s&ab_channel=SempreUmPapo. Acesso em 24 de setembro de 2021. 



Comentários

  1. GRUPO P (DAYSE E PEDRO).
    Olá, pessoal! Obrigada pela reflexão que o texto nos trouxe. As colocações sobre a literatura como poder de transcendência nos lembraram do livro Cidadã de segunda classe, da Buchi Emecheta. Na narrativa (metaficcional, inclusive) a protagonista tem o sonho de ser escritora, mas não consegue realizá-lo porque precisa cuidar dos filhos, sobreviver... Não é possível pensar na literatura como direito sem ponderarmos acerca da configuração da sociedade como ela é hoje. É uma grande luta por equidade que ainda temos pela frente!

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