GRUPO 1 - NOTURNO
Recursos textuais: Coesão e coerência; aceitabilidade; intertextualidade.
Tema proposto: LITERATURA E DITADURA: RESISTÊNCIA E EXERCÍCIO DE MEMÓRIA
A ditadura foi um período muito conturbado na história brasileira, marcado pela forte censura, a tortura e o exílio de pessoas que eram contra o regime ditatorial. Houve resistências em várias frentes, como política, artística e de guerrilha. Dentro da esfera artística, uma parte muito comentada e de grande peso é advinda da Literatura.
A versatilidade da Literatura em suas mais diversas formas (romances, crônicas, contos etc.) permite atingir diversos públicos e ser facilmente espalhada sem atrair muita atenção das autoridades da ditadura, uma vez que sua propagação se dá por meio da escrita, diferente de outras formas de arte como peças de teatro, música e outros.
Podemos citar o romance "Pessach – a travessia", escrito em 1967 por Carlos Heitor Cony, como um dos exemplos de obras literárias contra a ditadura, o qual conta a história de um escritor que precisa tomar uma decisão entre se juntar à luta armada contra o regime ou cruzar os braços. O título do livro faz uma menção ao "Pessach", que é um feriado judeu conhecido também por "Festa da libertação". Essa festa celebra a fuga do povo hebreu da escravidão no Egito. Seu enredo é uma mescla de história e ficção, onde nele é possível identificar que vários de seus personagens foram baseados em pessoas reais da época.
A literatura é um local de representação da liberdade de expressão, contudo esta liberdade foi um dos direitos fundamentais retirados da população em geral durante o domínio militar na ditadura. Proibição tornou-se palavra de ordem e a censura estabelecida vigiava de perto as mais diversas formas de manifestação artísticas. Era uma forma de controle e dominação, por isso, muitos artistas, inclusive escritores - artistas da palavra, foram perseguidos, presos, torturados e exilados.
Morais (2011) informa que duas principais formas de burlar a censura da época era utilizar figuras de linguagem nos textos, como a metáfora, bem como publicá-los em forma de panfletos ou produções artesanais, já que a imprensa estava totalmente controlada. Interessante ressaltar que outra forma encontrada era utilizar a literatura infantil como tom de denúncia do sistema vigente, tendo em vista que a censura não temia o livro infantil. Dentre as obras infantis com carga de crítica à ditadura, pode-se citar "O reizinho mandão", de Ruth Rocha.
No início da década de 80, a literatura que havia sido produzida durante a ditadura militar foi avaliada por críticos como Silviano Santiago e Flora Süssekind, em suas obras Vale quanto pesa e Literatura e vida literária, respectivamente. As obras literárias produzidas no período da ditadura representam uma reação à violência sofrida pela sociedade como um todo, onde os autores que tinham a audácia de utilizar a literatura como um veículo de denúncias eram alvos diretos.
Assim, a literatura foi utilizada como um escape da censura dos meios de comunicação. Segundo Santiago (1982), os processos de produção poderiam ser alegóricos por meio do chamado realismo mágico ou em um processo jornalístico de revelação do real. Süssekind (1985) pontua que ambos os processos possuem o objetivo de transmitir ao leitor uma mensagem parcial de denúncia política.
Outro aspecto das publicações desse período foi o de encontrar um método eficiente capaz de atingir o leitor, de fazê-lo pensar. Walter Benjamin é um autor que encontrou, precocemente, uma solução para esse problema, chegando à conclusão que precisava existir uma certa dominância da literatura sobre a política, resultando em obras de espírito crítico que fizessem todos refletirem, incluindo o próprio autor.
Há quem pense que a literatura tenha assumido um espaço secundário durante os anos de chumbo no Brasil, mas a verdade é que ela assumiu o importante papel de se fazer resistência cultural e de resguardar importantes memórias desse período. Na época, as artes “de espetáculo” (teatro, cinema e música) ganharam mais destaque, mas se tornaram mais “literárias”, colocando em suas obras sofisticadas, tradições cultas da prosa e da poesia (MEMÓRIAS DA DITADURA, 2014?).
A “crise do romance", anunciada pela crítica em 1970, fez com que as grandes respostas literárias à ditadura, no campo da ficção, retomassem a narrativa realista em um formato de documentário cinematográfico (MEMÓRIAS DA DITADURA, 2014?). Entre os principais formatos literários desses anos estavam o conto, a poesia, o livro-reportagem, a autobiografia e a novela. Além disso, os livros estavam sendo fortemente influenciados por outras linguagens, como a do jornalismo, a da publicidade e a do cinema.
Em 1975, houve um boom literário no Brasil com a publicação dos “romances-reportagem”, de best sellers internacionais e dos livros de memórias, principalmente em 1979, quando exilados começaram a retornar ao país e narrar suas histórias na luta contra o regime e no exílio (MEMÓRIAS DA DITADURA, 2014?). Os livros escritos por ex-guerrilheiros são importantes marcos para a recriação da memória sobre a experiência da guerrilha e seu lugar na história.
Assim, a literatura durante o regime ditatorial, além de um grande instrumento de luta e mesmo diante da censura que sofreu, constitui-se das reflexões sobre a violência das relações sociais e políticas intensificadas pela experiência autoritária. Foi também um instrumento vital para guardar as memórias reais vividas pelos militantes, uma vez que a documentação produzida sobre as práticas de repressão política aos que desafiavam o sistema alterava e distorcia os fatos para contemplar apenas o seu lado da história.
Parafraseando a escritora inglesa Evelyn Beatrice Hall, que, ao ilustrar as crenças do filósofo iluminista Voltaire, disse: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las” (HALL, 1906); não há nada mais democrático que o direito à liberdade de expressão, ainda que eu não concorde com o seu conteúdo.
A censura e a coibição de ideias contrárias, seja em obras literárias ou por meio de outras manifestações artísticas, impede que a sociedade evolua, tornando-a estagnada em um crescimento intelectual. Se por um lado a ditadura brasileira foi um período de grande opressão social, deve-se ressaltar também que contribuiu de certa maneira para que a população desenvolvesse um pensamento crítico e se tornasse mais combativa. O cerceamento de direitos individuais e coletivos sofrido na época estimula os cidadãos até hoje a refletirem sobre uma tomada de decisão consciente voltada para o coletivo. Ainda que se tenha um grande caminho a percorrer nesse sentido, retroceder não é uma opção!
Referências
BARROS, Deusa Castro. Memory and history in the fiction of Carlos Heitor Cony: a study of novels Passover, the crossing and Romance without Words. 2003. 137 f. Dissertação (Mestrado em Lingüística, Letras e Artes) - Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2003.
BRANDINO, Luiza. Realismo Fantástico. Portugues. Literatura. Disponível em https://www.portugues.com.br/literatura/realismo-fantastico.html. Acesso em 22 de outubro de 2021.
CONY, Carlos Heitor. Pessach: a travessia. 5ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
GINZBURG, Jaime. “A ditadura militar e a literatura brasileira: tragicidade, sinistro e impasse”. Desarquivando a Ditadura. Memória e Justiça no Brasil. São Paulo: Hucitec, 2009.
MEMÓRIAS DA DITADURA. Literatura. [S.I] [2014?]. Disponível em: <https://memoriasdaditadura.org.br/literatura/> Acesso em: 22 de outubro de 2021.
MORAIS, Josenildo Oliveira de. A Literatura infantil como instrumento de denúncia da ditadura militar. 2011. disponível em <chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/viewer.html?pdfurl=http%3A%2F%2Ftede.bc.uepb.edu.br%2Fjspui%2Fbitstream%2Ftede%2F2611%2F2%2FJosenildo%2520Oliveira%2520de%2520Morais.pdf&clen=986744> Acesso em 24 de outubro de 2021.
VIDAL, Paloma. Literatura e ditadura: alguns recortes. Coleção digital. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2003. Disponível em https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/colecao.php?strSecao=resultado&nrSeq=3551@1. Acesso em 22 de outubro de 2021.
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