GRUPO 5 - MATUTINO
Recursos Textuais: Coesão e coerência
Tema proposto: Escritoras negras e a representatividade na literatura
A vida é igual a um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encarar. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde moro.
Carolina Maria de Jesus, Quarto de despejo
Em toda a sua vida, quantos livros você leu que tenham mulheres pretas como protagonistas? Quantas escritoras pretas você estudou durante toda a sua vida acadêmica? Talvez a sua resposta seja nenhuma ou quase nenhuma, pois, infelizmente, o preconceito racial torna essas mulheres invisíveis aos olhos da sociedade.
O Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão, em 1888 pela Assembleia Geral e sancionada pela Princesa Isabel de Bragança, e esse fato deplorável da história brasileira (e da história do mundo) deixou marcas que até hoje são sentidas. O reflexo disso aparece na negação das nossas origens africanas, e isso reverbera nas diversas formas de arte. Apesar disso, mulheres como Maria Firmina Reis, Carolina Maria de Jesus, Noémia de Sousa, Alice Walker, Maya Angelou e Chimamanda encontraram a sua voz por meio da escrita. Através da literatura elas denunciam o preconceito que vivem no dia-a-dia, falam da marginalização dos pretos imposta pela sociedade, da pobreza, da violência e contam a sua verdade.
Não é de hoje que as mulheres negras escrevem e buscam obter seus espaço na literatura, essa função já vem sendo exercida por elas há alguns séculos com livros pautados em sonhos, emancipação e liberdade, porém algumas nunca tiveram seu devido reconhecimento e nem seus livros publicados, exatamente porque ainda existe uma invisibilidade que tem muito a ver com questões de raça, gênero e classe. Além disso ainda se encontra uma parcela pequena de livros com escritoras negras e personagens principais negros na literatura, somos levados então não só a refletir sobre a representatividade, mas também sobre essa falta, não só em bibliotecas, mas no circuito literário de maneira geral, onde muito se vê falarem sobre a representatividade negra, mas poucas pessoas de fato buscam saber o que isso significa.
Segundo Maria Consuelo Cunha Campos (2008, p. 1)
A representação hegemônica da mulher negra na literatura brasileira, ao longo da história, resultou, como sabemos, de construções de escritores brancos: integrou uma tripartição de funções socialmente atribuídas às mulheres brancas, mulatas e negras, elaborada pelo imaginário masculino eurodescendente. Centrada nos interesses do projeto de hegemonia deste segmento, via patriarcalismo, não apenas nas relações entre os gêneros, mas também nas econômicas, de dependência da mulher ao homem, e políticas, de marginalização dela da esfera pública e, sobretudo, do poder.
Apesar da incontestável presença de escritoras negras na literatura, as personagens construídas por essas escritoras muitas vezes não são lembradas na história da literatura, pois elas representam uma mulher não hegemônica (CAMPOS, 2008).
A notoriedade de escritoras e personagens negras na literatura, possibilita a criação de novas narrativas, e uma das importâncias dessa representatividade é a construção da identidade, principalmente na infância, pois é onde se vive o auge do nosso aprendizado, já que é através dos acessos e convivências que temos com o mundo a nossa volta que nos ajudam na nossa construção como pessoas. É através dessa representatividade de histórias com personagens negros que nos trazem outra dimensão de linguagem e de metáforas ligadas à memória, à ancestralidade, mas que também incluam a subjetividade e contrariem os estereótipos milenarmente construídos acerca do povo negro no Brasil.
Com a presença mais resistente de escritoras negras dentro de um padrão predominante branco, faz se necessário a inclusão da mudança de comportamento em relação à maneira como a literatura está sendo direcionada. Inclusão de diversas manifestações artísticas, sendo a literatura voltada não para acabar com racismo nesse sentido, mas para que tantos escritores e leitores possam empoderar-se, mas também, mostrar aos leitores uma forma de valorização da cultura negra.
A literatura, de uma forma geral, auxilia na compreensão do mundo e das relações humanas através da exposição dos contextos sociais existentes. Ou seja, por meio do texto literário, o indivíduo pode ter contato com a realidade que o cerca e assim, ser capaz de elaborar e reelaborar melhor suas questões a respeito de si, do outro, do mundo e da vida. Para a doutora em educação Eliane Cavalleiro “compreende-se que o reconhecimento positivo das diferenças étnicas deve ser proporcionado desde os primeiros anos de vida” (CAVALLEIRO, 2006, p.26).
Durante séculos as mulheres em sua composição histórico-social tiveram suas vozes silenciadas, o saber e o conhecimento eram status fortes de demonstração de poder para os homens, uma fonte de reforço às diferenças e desigualdades para as mulheres. Vivemos em um país considerado amplo no multiculturalismo, porém em uma sociedade com heranças escravocratas, estruturada ainda pelo racismo e pelo patriarcado, onde também se existe ainda a subalternização social. As mulheres no processo de busca de espaço, acabaram encontrando imposições e limitações em relação a suas ações e representatividade na sociedade, o que paras as mulheres negras até hoje esse silenciamento é mais cruel, onde a construção da identidade da escritora mulher negra em uma sociedade racista e machista, o lugar que lhe é reservado seja o menor.
A literatura, sem dúvida alguma, pode ser uma grande aliada contra o racismo e outros tipos de preconceitos existentes em nossa sociedade, principalmente se essas obras são lidas e discutidas desde a infância. Ela permite que crianças negras cresçam se sentido representadas e aprendam a se valorizar mais, buscando na experiência da leitura conforto, sentindo-se abraçadas e mais fortalecidas para lidarem com o preconceito racial que possam rondar as suas vidas.
Indicações de livros:
Úrsula - Maria Firmina do Reis
Quarto de despejo - Carolina Maria de Jesus
Torto Arado - Itamar Vieira Junior
O sol é para todos - Harper Lee
A cor púrpura - Alice Walker
Um defeito de cor - Ana Maria Gonçalves
Hibisco roxo - Chimamanda Ngozi
Americanah - Chimamanda Ngozi
Os olhos de azeviche - Vários
Pequeno manual antirracista - Djamila Ribeiro
Irmã outsider - Audre Lorde
Eu sei por que o pássaro canta na gaiola - Maya Angelou
O ódio que você semeia - Angie Thomas
Omo oba: Histórias de princesas - Kiusam de Oliveira
O mar que banha a ilha de Goré - Kiusam de Oliveira
Referências
COSTA DE SANTANA OLIVEIRA, Francelene. Mulheres negras letras e literatura: uma análise de condição da mulher negra no final do século XIX e meados do século XX. In: REDOR, nº18, 2014, Recife. Anais. Universidade Federal Rural de Pernambuco, 2014, p. 1586-1605.
CUNHA CAMPOS, Maria. Representações da mulher negra na literatura brasileira. In: XII Seminário Nacional Mulher e Literatura, nº3, 2007, Ilhéus. Anais. UESC, 2007, p. 1-8.
GUZZO, Morgani. Conceição Evaristo: a escrevivência das mulheres negras reconstrói a história brasileira. Catarinas. 28 julho. 2021. Disponível em: https://catarinas.info/conceicao-evaristo-a-escrevivencia-das-mulheres-negras-reconstroi-a-historia-brasileira/. Acesso em: 20 de outubro. 2021.
KIM ABE, Stephanie. Mulheres negras na literatura. Cenpec. 12 de março. 2021. Disponível em: https://www.cenpec.org.br/tematicas/mulheres-negras-na-literatura. Acessado em: 20 de outubro. 2021.
SANTIAGO DA SILVA, Ana Rita. A Literatura de escritoras negras: uma voz (des)silenciadora e emancipatória. Interdisciplinar – Revista de estudos de língua e literatura, Cruz das Almas, v. 11, p. 175-188, 2 de julho, 2013.
SILVA SOUZA, Florentina. Mulheres negras escritoras. Revista Crioula – USP, Bahia, p. 19-39, 20 de dezembro, 2017.
Comentários
Postar um comentário