GRUPO 4 - NOTURNO

 

Grupo 4

Adélia, Thiago Cruz

  
Recursos textuais: Coesão e coerência

Tema proposto: Escritoras negras e a representatividade na literatura


“O olho do sol batia sobre as roupas do varal e mamãe sorria feliz. Gotículas de água aspergindo a minha vida-menina balançavam ao vento. Pequenas lágrimas dos lençóis. Pedrinhas azuis, pedaços de anil, fiapos de nuvens solitárias caídas do céu eram encontradas ao redor das bacias e tinas das lavagens de roupa. Tudo me causava uma comoção maior. A poesia me visitava e eu nem sabia…”

 Conceição Evaristo, Epígrafe. 





  No dicionário pode-se encontrar o atual significado para a palavra representatividade: “Qualidade de alguém, de um partido, grupo ou sindicato, cujo embasamento na população faz com que ele possa exprimir-se verdadeiramente em seu nome”. Para escritoras negras, a representatividade toca em um caráter crucial de sobrevivência. A escritora Conceição Evaristo explica que para o povo negro, essa representatividade não acontece de forma orgânica, se tornando conquistas oriundas de luta.
 
 Dentro mundo literário, toda essa luta acaba ecoando para dentro das obras produzidas por mulheres negras. Em Cantos à beira-mar (1871), Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista brasileira, denuncia em seus poemas o racismo e as opressões sofridas. Em Úrsula (1859), seu primeiro romance, a escritora maranhense retrata o racismo e as injustiças vividas pelos escravos:



  
 “O comendador P... foi o senhor que me escolheu. Coração de tigre é o seu! Gelei de horror ao aspecto de meus irmãos... os tratos, por que doeram-me até o fundo do coração! O comendador P... derramava sem se horrorizar o sangue dos desgraçados negros... E eu sofri com resignação todos os tratos que se dava aos meus irmãos, e tão rigorosos como os que eles sentiam. E eu também os sofri, como eles, e muitas vezes com a mais cruel injustiça.”

  As atrocidades relatadas retratam um Brasil colônia escravocrata e desigual, onde pessoas negras eram vistas como mercadoria e totalmente bestializadas. Sendo isso reflexo de um mercantilismo racista, onde africanos eram pegos e levados ao Brasil por navios, estes chamados negreiros, expostos a violência e condições insalubres. Os que sobreviviam, eram vendidos e tornavam-se escravos.
  
  Paralelamente, Carolina Maria de Jesus, foi também uma das primeiras escritoras brasileiras negras a desenvolver seu papel de representatividade na literatura, escrevendo cerca de 20 diários relatando suas condições e vivências, marcando assim discursos do espaço da mulher negra na sociedade e contribuindo na reflexão e revisão de diversos conceitos e estereótipos na literatura, em que perpassava discurso de opressão e preconceito. Corroborando para questionamentos do espaço e da condição da mulher negra em uma sociedade marcada por injustiças.




“...Adeus! Adeus, eu vou morrer!
E deixo esses versos ao meu país
Se é que temos o direito de renascer
Quero um lugar, onde o preto é feliz.”
  
  Nesses belos versos porém trágicos, é possível perceber como a exclusão e a falta de representatividade afetam a mulher negra em todas as esferas e recortes. Carolina Maria de Jesus não conseguia enxergar um futuro feliz nem para si, nem para outras pessoas negras e apesar disso, seguiu denunciando as mazelas enfrentadas na esperança de um dia ser ouvida.
  
  Diante disso, a literatura na mão de mulheres negras se torna um instrumento de luta e denúncia, uma arma poderosa contra um sistema cruel. A representatividade é algo essencial na construção da subjetividade e identidade negra, e na literatura, transforma indivíduos sem voz e sem história em seres viventes, com alma, dores, alegrias e histórias essenciais para a emancipação do povo negro.

“...Que os livros escondem,
As palavras ditas libertam.
E não há quem ponha
Um ponto final na história
Infinitas são as personagens…
Vovó Kalinda, Tia Mambene,
Primo Sendó, Ya Tapuli,
Menina Meká, Menino Kambi,
Neide do Brás, Cíntia da Lapa,
Piter do Estácio, Cris de Acari,
Mabel do Pelô, Sil de Manaíra,
E também de Santana e de Belô
E mais e mais, outras e outros…”

Referências: 

RODA VIVA. Conceição Evaristo no Roda Viva. 
2021. Disponível em: https://m.youtube.com/user/rodaviva

RODA VIVA. Conceição Evaristo | Escrivivência. 
2021. Disponível em: https://m.youtube.com/user/rodaviva

EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Rio de janeiro: Editora Malê, 2017.









Comentários

  1. Grupo 2 ( Christian, Deyse, Gabrielle e Janaina).
    Ter a representatividade negra na literatura é algo grandioso, pois representa uma luta de séculos contra o silêncio forçado. Mulheres sempre foram submetidas a apenas concordarem com seus parceiros. Ser mulher sempre foi difícil, mas ser uma mulher negra é receber a discriminação em dobro. Analisar os relatos dessas mulheres é algo triste, contudo muito significativo porque nos remete a dois propósitos, o de não reproduzir o passado, e o de fornecer ainda mais visibilidade para que novas e futuras gerações de escritoras negras se inspirem e busquem seus lugares. A literatura é de todos e para todos.

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  2. Grupo 5 (Paulo Ricardo, Miquéias e Beatriz B).
    Ótima reflexão.
    Na literatura vemos muitas histórias com os mesmos padrões e estereótipos negativos vinculados ao negro, ainda mais pela ausência de personagens negros.
    É importante que cada vez mais, tenhamos personagens principais negros, até para que crianças negras se identifiquem e criem uma visão de mundo diferente das que são impostas nos padrões!

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  3. Ótimo tema, ainda mais nas mãos de Thiago e Adélia.

    A mulher negra é a força que carrega este país, mesmo quando nem forças mais tem. É um agridoce de necessidades difusas, um afeto e uma herança de matriarcados atropelados por uma ordem masculina cartesiana capitalista que as subjuga. O problema não são os homens, antes que algum tome dores...

    O problema é o homem como medida de todas as coisas, o homem branco heterossexual e cisgênero, o famoso sujeito universal desde os mais antigos deuses humanizados do Ocidente até todo poder que os damos presos nessas estruturas de opressão.

    Seu texto está acessível, rico e pungente. Sugiro até fazer deles uma série de textos, investigando escritores diaspóricos no Brasil também no masculino e em outras possibilidades de corpos e vivências. Deixar a gira girar e reverberar no infinito.

    Parabéns, Adélia!
    E muito obrigado, Thiago!
    Só você sabe o valor que tens para mim.

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